Pesquisa: Diego Jucá e Débora Costa

O desenvolvimento de uma embalagem, por mais simples que possa parecer, envolve algumas decisões que devem ser previamente planejadas. Um planejamento de uma embalagem requer, enfim, que alguns fatores sejam cuidadosamente observados, a fim de que seus objetivos prévios sejam alcançados. Um desses fatores é a sua proporção, que consiste na disposição conveniente e harmônica de umas partes com outras e destas com o conjunto. Essa combinação de elementos, com sentido de ordem e unidade, deve ser feita de modo que cada elemento seja parte integrante do todo. O tamanho e o peso de cada elemento devem, portanto, estar em equilíbrio com o tamanho e forma da composição.

Por fim a proporção é orientada, por normas geométricas baseadas na construção das formas naturais (como as plantas, as flores, os animais, o corpo humano, etc.) e, por isso, são informações já reconhecidas e tendem a agradar aos olhos mais facilmente.

Segundo Mestriner (2002), a forma, é o principal elemento de diferenciação na embalagem. O shape de um novo frasco tem um efeito marcante na identificação de um produto. Produtos que têm muita personalidade e precisam expressá-la de maneira categórica devem colocar como ponto relevante de sua embalagem uma forma diferenciada.

No que diz respeito à forma, é comum vermos empresas que valorizam essa característica inovando em embalagens exóticas como as de perfume ou a tradicional garrafa da Coca-Cola que mesmo tendo sofrido alterações ao longo do tempo com o seu formato curvilíneo foi responsável por transformar essa embalagem em um dos ícones mais identificáveis do mundo (Figura 01). Existem frascos de vários formatos. Mas há também empresas que nada criam em termos formatos diferenciados, mesmo quando o tipo de produto comercializado e o público-alvo requerem uma forma diferente nas embalagens algumas empresas nem percebem essa necessidade e insistem no mais simples.

Mestriner (2002), também afirma que a forma assume um papel preponderante na criação de referências para uma marca. Deve em conjunto com outros elementos motivar a compra do produto, ser referência para o mercado alvo servindo como fator de identificação capaz de criar confiança nos consumidores potenciais. Em algumas categorias de produtos, o formato tem de respeitar uma determinada configuração. Já em outras é o estilo, o fator determinante para o sucesso do produto. Isto pode ser observado nas embalagens de bebidas alcoólicas, em que o formato das garrafas não obedece, obrigatoriamente, a normas rígidas e determinadas, não se verificando a existência de uma forma padrão, sendo o estilo de cada marca o fator diferenciador.

Para Moura e Bonzato (1997), o produto não pode ser planejado de forma dissociada da embalagem, que, por sua vez, não deve ser definida apenas com base no bom senso, pois integra um sistema complexo de materiais, funções, formas e processos de engenharia, marketing, comunicação, legislação e economia.

PROPORÇÕES HARMÔNICAS

Beleza é a percepção individual de características que são agradáveis aos sentidos. Alguns aspectos referentes a essas características são universais, enquanto outros são restritos a culturas, sociedades ou períodos de tempos específicos. Para Doczil (1990) Apesar de variação significativa, existe alto grau de concordância entre as culturas do que é considerado belo: perfeição de formas e proporções harmônicas, pois muitas coisas que são consideradas belas apresentam uma proporção chamada áurea (Figura 02).

Para Ribeiro (2003), as melhores formas são as que mais impressionam, as que melhor se entoam e as que são mais facilmente lembradas. Estas formas são, geralmente, muito simples e matematicamente determinadas, ou seja, o triângulo, o quadrado, o retângulo, as elipses, etc.

Segundo Dichter (1975), a utilização adequada dos elementos que compõem a estrutura da embalagem, ou seja, a relação entre formato, contorno, material e a impressão tátil, fazem da embalagem uma ponte, um elo de ligação com o produto. Entretanto, quando esses elementos não conseguem retratar com fidelidade o produto, podem funcionar como uma barreira na comunicação.

RAZÃO ÁUREA

Para Boyer (1996), embora não haja documentos da época, provavelmente foram os pitágóricos os primeiros a demonstrar as relações entre os lados do triângulo retângulo: “A soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa”, relação esta conhecida como “teorema de Pitágoras”.

Para a razão áurea dizemos que um ponto divide um segmento em média e extrema razão significa que este foi seccionado de forma notável. Dando origem a dois segmentos desiguais. Partindo desses segmentos temos a razão áurea, ou seja, a relação que a define como:

Segundo Boyer (1996), a essência de tudo, na geometria como nas questões práticas e teóricas da vida do homem, pode ser explicada em termos aritiméticos, ou das propriedades intrínsecas dos inteiros e suas razões, era um artigo de fé fundamental do pitagorismo.

Construído há muitas centenas de anos depois, por volta de 447 e 433 a.C., o Partenon Grego (Figura 04), templo representativo do século de Péricles contém a razão de Ouro no retângulo que contem a fachada, o que revela a preocupação de realizar uma obra bela e harmoniosa.

O RETÂNGULO ÁUREO

Para Ribeiro (2004), a regra de ouro é de aplicação universal e bastante utilizada para ajustar a proporção da forma e todos os elementos de seu conteúdo. O retângulo áureo nos dá uma figura onde a criatividade da composição artística alcança seu  rendimento pleno.

O retângulo áureo (Figura 05) apresenta os seus lados na razão áurea, isto é: a/b = 1,618… Este retângulo exerceu uma influência muito grande na arquitetura e na pintura. Nos dias de hoje ele é bastante utilizado no formato de cartões de crédito, carteira de identidade, carteira de habilitação, capas de livros embalagens, cadernos, cartas de baralho, blocos de papel de carta, janelas, construções, produtos, etc.

Este retângulo é muito especial, conhecida desde a Antiguidade. Ela cumpre esta razão, também conhecida como a Golden Ratio ou Divina Proporção.

Em 1876, o psicólogo alemão, Gustav Fechner, realizou uma pesquisa sobre a preferência por formato de retângulos (Figura 06). O resultado desta pesquisa mostrou que a maioria das pessoas prefere certo retângulo cuja razão entre as suas medidas muito se aproxima da razão áurea. Essas pesquisas foram repetidas por Wilmar (1894), Lalo (1908) e Thorndike (1917) e em cada uma destas pesquisas os resultados foram semelhantes.

SEQÜÊNCIA FIBONACCI

A seqüência Fibonacci famosa e muito conhecida, no mundo ocidental graças ao Leonardo de Pisa, matemático italiano, nascido em Pisa (Itália) no ano de 1175, filho de Bonacci, também chamado por Fibonacci (filius Bonacci). Por isso, é conhecido como Seqüência Fibonacci. Esta é uma seqüência infinita de números naturais, onde o primeiro valor é 0, O próximo é 1 e, a partir daí, cada valor é obtido pela somando os dois anteriores (Figura 07).

ESPIRAL FIBONACCI

Os valores desta seqüência aparecem em inúmeras aplicações, mas é o Espiral Fibonacci a mais reconhecida, Pois sempre foi utilizado como uma aproximação para o Espiral Áureo (Um tipo de espiral logarítmico) porque é mais fácil para representar, com a ajuda de um simples compasso (Figura 08).

Vamos criar primeiro alguns quadrados que correspondem a cada valor na seqüência: 1×1 – 1×1 – 2×2 – 3×3 – 5×5 – 8×8, etc., e eles são organizados na forma como vemos na figura abaixo à esquerda.

Em seguida, traçamos um arco de círculo quarto (90 °) dentro de cada quadrado e podemos facilmente ver como se constrói passo a passo o Espiral Fibonacci, Olhando para a figura acima da direita.

Segundo Fibonacci (1170 – 1250) o corpo humano se organiza em módulos de 3, basta dividirmos a altura do corpo humano em 3 partes. E se quiser saber a altura da dobra da narina, basta dividir a altura da cabeça por 3 e 3 vezes. São módulos e sub módulos de 3.

Em 1946, o arquiteto franco-suíço Charles Édouard Jeanneret, conhecido como Le Corbusier (1887-1965), Segundo Proença (2003), criou um modelo de padrões de dimensões harmônicas à escala humana, aplicáveis a Arquitetura e ao Desenho Industrial, denominado pelo autor de “Le Modulor” (Figura 10), tendo como base o número de ouro e os números de Fibonacci. Este modelo utiliza também as dimensões médias humanas, dentro da qual Le Corbusier considerou inicialmente 175 cm por ser a estatura média do homem europeu.

RETÂNGULO DINÂMICO

Para Ribeiro (2004), um retângulo tem a propriedade de poder ser dividido infinitamente em retângulos menores proporcionais. Isto significa que, quando um retângulo é dividido ao meio, sucedem dois retângulos menores. Deve se observar que a proporção de um retângulo aproxima-se bastante da razão áurea. As proporções do retângulo são 1:1, 141 e a razão áurea é 1: 1, 618.

Ribeiro (2004) também afirma que da mesma forma que o retângulo √2, os retângulos podem ser divididos em retângulos similares transformando-os em √3, √4, √5.  Sua obtenção é conseguida pelo deslocamento da diagonal do quadrado sobre um dos lados, resultando no retângulo raiz de 2. Para se obter um retângulo raiz de 3, procede-se de maneira idêntica, tomando-se como base o retângulo raiz de 2, e assim por diante conforme figura abaixo:

RETÂNGULOS HARMÔNICOS

Wersin (2003) em seu livro sobre o Orthogons dá informações detalhadas sobre como construir e utilizar um conjunto especial de 12 retângulos inter- relacionados para o desenvolvimento de produtos e embalagens. O conjunto de 12 Orthogons é determinado pela expansão de um quadrado com uma série de arcos e pontos de cruzamento até a outra extremidade, formada pela duplicação exata do quadrado original (Figura 12).

Wersin (2003) também explica como os retângulos harmônicos podem ser detectados e utilizados em arquitetura, cerâmica, móveis, produtos e obras de arte.

Encontrada em formas naturais, tais como espirais de galáxias, e girassol, a onipresença da seqüência na natureza levou a concluir que padrões baseados na sucessão de Fibonacci, Retângulos dinâmicos, harmônicos são intrinsecamente estéticos e, então, merecedores de consideração no Desenho de embalagem. Brod ( 2009).

A razão áurea surge inesperadamente em diferentes contextos transmitindo sempre a sensação de estética e beleza, por isto ela é surpreendente. Não pudemos deixar de admirar a beleza do girassol, da concha marinha, do retângulo áureo, do segmento áureo, das proporções harmônicas no nosso corpo, da pintura e da arquitetura. Sabemos da sua importância no passado: arte, arquitetura, pintura e também da sua importância no presente: arquitetura, arte, natureza, estética, formato de produtos, livros e embalagens. Tudo isto nos leva a perceber a importância desta razão e o motivo pelo qual foi chamada de razão áurea.

Quanto ao fator mercadológico, a força da embalagem provida de formas conectadas a proporções harmônicas tornam-se mais bonitas e atraentes, pois ninguém prefere o feio.

Abaixo segue alguns bons desenhos de embalagens:


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Agradecimentos:

Débora Silveira da Costa por parte do material aqui postado.

Bibliografia:

BERGMILLER, K. H.; WEYNE, G., STEINBERG; S., SOUZA; P. L. Manual para Planejamento de Embalagens. Rio de Janeiro: IDI/MAM, 1976.

BOYER, Carl B. História da matemática/Carl B. Boyer, revista por Uta C. Merzbach; tradução Elza F. Gomide – 2.ed. São Paulo: Edgard Blücler,1996.

Dichter, E. “Packaging: the sixth sense? A guide to identifying consumer motivation” Boston, Cahners Publishing Co, 1975.

DOCZIL, Gyorgy; TRICCA, O. O poder dos limites: harmonias e proporções na Natureza, Arte e Arquitetura. São Paulo: Mercuryo, 1990.

GIOVANNETTI, M. D. V. El mundo del envase: manual para el diseno y produccion de envases y embaleges. Barcelona: Gustavo Gili, 1995.

HUNTLEY, H. E. A Divina Proporção – Um Ensaio sobre a Beleza na

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KOTLER, Philip. Administração de Marketing. 10.ed., São Paulo: Prentice Hall, 2000.

MESTRINER, Fabio. Design de embalagem: curso avançado. São Paulo: Prentice Hall, 2004.

MOURA, Reinaldo A; BANZATO, Jose Mauricio. Embalagem, utilização & conteinerização. 2.ed. São Paulo: IMAM, 1997.

NEUFERT, Ernst. Arte de Projetar em Arquitetura. 5.ed., São Paulo: Editora Gustavo Gili do Brasil S.A., 1976.

PROENÇA, Graça. História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2003.

RIBEIRO, Milton. Planejamento visual gráfico. 8.ed., atual. Brasília: LGE, 2004.

RETORTA, E. M.Textos de gestão – Embalagem e Marketing a

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