FIGURAS IMITATIVAS

Para as marcas imitativas os parâmetros analíticos se constituem a partir do inter-relacionamento entre os planos formal e conceitual, o que torna a avaliação e análise mais problemática do que no caso das marcas abstratas. Neste trajeto devemos partir do fundamento da representação imitativa.

A imagem imitativa é aquela que parece reproduzir alguns aspectos ou propriedades do objeto a que se refere, ou seja, se assemelha visualmente, de algum modo ou segundo alguma competência, ao seu objeto. Na representação de um objeto selecionam-se alguns de seus aspectos, sejam eles visíveis ou conhecidos. Estes aspectos são denominados traços distintivos, pois o diferenciam em relação a outros objetos. Em combinação ou isoladamente alguns traços tradicionalmente já se impõem em relação a seus objetos por terem se consagrado como os mais característicos.

Na concretização da imagem, os traços distintivos, são representados segundo convenções iconográficas, ou seja, modos específicos (históricos, estilísticos etc.) de se representar visualmente, envolvendo mesmo alguns tipos de equivalência gráfica já estabelecida a partir da própria seleção de traços. Por exemplo, no desenho da silhueta de um homem recorre-se a uma convenção, pois esta linha não existe efetivamente, correspondendo apenas à separação virtual, no campo perceptivo, entre o homem e o “não homem”. Do mesmo modo quando se desenha uma estrela de cinco pontas recorre-se a convenção, pois uma estrela não tem cinco pontas, sendo as que aparecem no desenho uma representação esquemática das figurações; ou quando se desenha um volume qualquer por trás deste ato está à teoria da perspectiva que se desenvolve a partir do renascimento.

A convenção está presente na tradução dos traços distintivos selecionados por elementos gráficos, e esta relativização do caráter motivado da imagem imitativa em relação ao seu objeto aponta para uma autonomia relativa do plano formal. Separando, para efeitos analíticos, as duas faces de uma mesma operação, pode-se falar de seleção tanto em termos dos traços distintivos do objeto quanto em termos de possibilidades de tratamento gráfico para a formalização da imagem.

Tomamos o exemplo de um pirata. Privilegiando o “objeto”, existem certos atributos de corsários e piratas que tradicionalmente já são selecionados, tais como lenço na cabeça, brinco de argola, tapa-olho, rosto barbado, camiseta listrada, calça em frangalhos, papagaio no ombro, perna-de-pau etc. a força destes traços evidentemente não é uniforme, levando entre eles alguns que mais facilmente identificamos pirata. Na medida em que todos os objetos possuem situações relativas no espaço e no tempo, seria ainda necessária a seleção de seu “estado”; o pirata está sentado, em pé, braços levantados, rosto virado, etc. E, por último, vai ser selecionado também o seu “enquadramento”: se a imagem é do rosto, do corpo inteiro, de lado etc.

Por outro lado, do ponto de vista formal existem opções quanto ao modo como os traços selecionados atualizam os conceitos em visibilidade. A escolha de um tipo particular de formalização gráfica pode vir do mesmo a condicionar de que modo, em que medida e que tipos de traços distintivos vão ser selecionados.

São três as possibilidades de tratamento gráfico de imagens imitativas:

Tendência à máxima verossimilhança quando as imagens se parecem com o objeto. Em se tratando de marcas existe uma precariedade própria dos meios gráficos, assim como um reconhecimento implícito de que uma imagem simplificada talvez seja mais facilmente implantada e memorizável, que torna rara a ocorrência de marcas que se queiram ilusionistas.

Tendência à simplificação ou esquematização máxima, resultando em uma representação que se afasta do que aparece como objeto. Procura-se captar relações e funções ao invés da forma aparente, estando em jogo à economia de elementos gráficos. A parcimônia de recursos a traços distintivos pode, inclusive, conferir uma indiferenciação maior ao objeto referido. Por exemplo, pretendendo representar esquematicamente um homem, não há garantias se o desenho refere-se a um homem ou a uma criança; ou a representação esquemática de um pássaro não oferece elementos para o reconhecimento de alguma espécie em particular.

Existem simplificações em diversos graus, silhuetas, por exemplo, é um tipo de simplificação. Em ocorrências mais radicais desta tendência, pode vir a ser difícil o reconhecimento da base imitativa, tendendo a imagem a ser identificada como abstrata. Como pode ocorrer também leitura múltipla, que consiste na identificação de mais de uma base imitativa para uma figura.

Tendência à estilização máxima, que consiste na supressão acréscimo ou, sobretudo, na modificação de traços distintivos visando um estranhamento no reconhecimento do objeto. O exagero é importante recurso dessa tendência, que abrange desde a humanização de animais e objetos, própria das histórias em quadrinhos, até as de formações expressionistas. Estão neste caso tosos os bonecos e caricaturas, que são imagens de classificação particularmente problemática.

TRATAMENTOS GRÁFICOS DA FIGURA IMITATIVA


De acordo com as três tendências de formalização da figura imitativa, que são: a seleção a mais fiel possível de tudo que é aparente em um objeto (verossimilhança); daquilo que é mais essencial (simplificação); a seleção e alteração de traços particulares (estilização). As diversas possibilidades de combinação podem ser mais bem imaginadas de acordo com o esquema a seguir.

O esquema coloca em três vértices de um triângulo imaginário, os três tipos de tratamento gráfico. Cada vértice representa assim uma tendência de polarização, pois é impossível a existência de qualquer destes tratamentos sem a presença de alguns aspectos típicos dos outros dois. Inicialmente veja-se a questão da verossimilhança. Sempre vai existir alguma em imagens imitativas simplificadas ou estilizadas. Inversamente, sempre estará em jogo algum tipo de seleção frente às possibilidades de percepção para a produção de uma imagem bastante verossímil do percebido. Por outro lado, a simplificação é um tipo de estilização particular, assim como a estilização envolve a simplificação. E assim por diante.

Pode-se então, dizer que as várias formalizações possíveis de figuras se distribuem no interior deste triângulo, cada ocorrência apresentando, simultaneamente, mas com pesos diferentes, as três tendências de tratamento gráfico.

Comparativo entre estilização e verossimilhança



Comparativo entre estilização e verossimilhança


Comparativo entre estilização e verossimilhança


Deve ser indicado que a gama de diferenciações possíveis entre os infinitos objetos existentes evidencia que alguns deles representam um potencial maior para a representação de outros.

Entre uma árvore e um anel, por exemplo, pode-se dizer que o primeiro objeto tende a possuir um maior número de representações do que o segundo. Além disso, considerando os vértices do nosso triângulo virtual existem mais maneiras de se representar visualmente uma árvore do que um anel. A estrutura visual relativamente mais complexa dessa enseja um número maior de etapas num processo de simplificação progressiva, por exemplo. E de modo similar com outros pares de vértices.

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Compilação para estudo  de:

Lessa, Washington Dias. Dois estudos de comunicação visual. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995.