Por Rodrigo Grossini

rodrigo@desenhantes.com.br

O que uma das cenas mais clássicas no imaginário daqueles que viveram a década de 80 ou reviveram ela através dos filmes da Sessão da Tarde durante a década de 90 faz em um blog sobre Desenho Industrial/Design?

Pois bem, dias atrás lendo o livro Fantasia de Bruno Munari fiquei motivado a escrever um pouco sobre o assunto ilustrando alguns conceitos que o autor apresenta. O livro é de leitura muito fácil e motivadora. Vale a pena.

Logo nas primeiras páginas Munari apresenta a definição dele para alguns conceitos:

Munari sobre Fantasia e Invenção:

“A fantasia é a faculdade mais livre de todas as outras. Com efeito, ela pode até nem ter em conta a viabilidade ou o funcionamento daquilo que se pensou. É livre de pensar a coisa que quiser, até a mais absurda, incrível ou impossível.

A invenção utiliza a mesma técnica da fantasia, isto é, o relacionamento entre o que se conhece, mas com a finalidade de um uso prático. Inventa-se um motor novo, uma fórmula química, um material, um instrumento, etc. O inventor porém, não se preocupa com a vertente estética da sua invenção. Aquilo que lhe interessa é que a coisa inventada funcione realmente e sirva para alguma coisa. […]”

Munari sobre Criatividade:

“Também a criatividade é uma utilização finalizada da fantasia, aliás, da fantasia e da invenção, simultaneamente. A criatividade é utilizada no campo do design, considerando-se o design como modo de projetar, um modo que, ainda que livre como a fantasia e exato como a invenção, abrange todos os aspectos de um problema, não só a imagem como a fantasia, não só a função como a invenção, mas também os aspectos psicológicos, sociais, econômicos e humanos. Pode-se falar do design como sendo a concepção do projeto de um objeto, de um símbolo, de um ambiente, de uma nova didática, de um método de projeto para tentar resolver necessidades coletivas, etc.”

Agora um pequeno exercício particular de ilustração dos conceitos:


A bicicleta cujas rodas foram substituidos por tênis é um projeto de Max Knight. Como imagem funciona, mas é um produto com a função comprometida. Não realizável. Mas não por isso desprezível. Ocorre a fantasia pela fusão de elementos diferentes. Não podemos desprezar este tipo de analogia. Pode ser comparada à imagem da bicicleta do filme E.T. Em 1982 ninguém imaginou que uma bicicleta voaria. Calma, elas ainda não voam, mas logo abaixo veremos que estamos perto disso.

A bicicleta ergométrica (Alguém aí sabe de quem foi a idéia?) pode ser caracterizada essencialmente como um invento. Nasceu para suprir a necessidade de pessoas que queriam exercitar-se mas não podem usar uma bicicleta na rua por qualquer motivo que seja. Também nasceu em função de saúde, pois o ciclismo estático é indicado para pessoas que possuam lesões, por gerar menos impactos sobre o usuário. Mas convenhamos que é um produto onde a estética fica em segundo plano, ainda que atualmente tenha mudado isto um pouco.

Bicicletas não voam, mas quase. Este projeto de ciclovia que já foi muito divulgado pela internet chamase projeto kolelinia. É uma idéia maluca de um cidadão que propõe uma ciclovia suspensa onde o ciclista é conduzido por um trilho. Seria uma idéia fantástica? Claro! Seria um invento? Claro! Mas é muito mais que isso, pois tem sua viabilidade técnica resolvida. E vai ao encontro de um problema de mobilidade urbana. Entra no site do projeto e veja que é perfeitamente viável.

E aqui de volta o nosso E.T imagino por Steven Spielberg. Será que o projeto da ciclovia suspensa teve alguma inspiração nesta cena? Não é dificil imaginar que sim. E mais, imagina quantas cabeças esta imagem inquietou? Da materialização da imaginação surgiu mais que uma imagem, mas um ícone.

Daria pra fazer mais uma série de considerações a respeito destas idéias. Mas preciso almoçar. hehehe

Espero que gostem e que este pequeno texto abra a cabeça de algumas pessoas.

E não se esqueçam que amanhã dia 05 de novembro é o dia do Designer. Teremos um texto exclusivo de Luiz Vidal Negreiros Gomes a respeito da data.