Dia 5 de novembro. O dia do Desenhador/Designer. Que tal conhecermos um pouco mais da história da nossa profissão nesta data importante? Este é o convite que fazemos a todos. Acompanhem o texto de autoria do Luiz escrito exclusivamente para o blog dos Desenhantes.

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Salve! 5 de novembro de 1849 e de 1927.
O Dia Nacional do Design brasileiro e do Desenho nacional

Por Luiz Vidal Negreiros Gomes

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Em 2002, fiz uma significativa descoberta para o Desenho Industrial / Design brasileiro: percebi que um dos principais autores de língua portuguesa para a Política da Educação Escolar e, acreditem, também para o Ensino do Desenho, havia nascido no mesmo dia que um dos mais relevantes mentores brasileiros sobre o Pensamento e a Prática do Desenho industrial / Design. A coincidência é fantástica! Rui Barbosa nasceu em Salvador, Bahia, no dia 5 de novembro de 1849; e Aloísio Magalhães veio ao mundo no mesmo dia, na cidade de Recife, Pernambuco em 1927, logo, com uma diferença de 78 anos. As coincidências são muitas: filhos de pais médicos, nordestinos, interessados na defesa da cultura material, por meio de um forte sistema educacional para o desenvolvimento das ideias e dos comportamentos do povo brasileiro.

Justo por todo seu profícuo pensar, Rui, apesar de desenhar ideias com palavras escritas, foi objeto de traço caricatural de muitos desenhistas de humor. Aloísio, exatamente por todos seus proveitosos pensamentos, teve objetivos projetuais para diversos tipos de produtos, fossem eles desenhos de símbolos e logotipos para marcas e identidades corporativas, fosse para o desenho de estruturas  gráficas do papel-moeda brasileiro, então, denominado “cruzeiro novo” (1978).

Em meado do século XIX, Salvador já contava com estabelecimentos científicos, uma opulenta biblioteca e importantes escolas – de Medicina, de Teologia, e de Artes e Ofícios. Foi nesse cenário de desenvolvimento que Rui Barbosa, filho de João José Barbosa de Oliveira, médico, intelectual e político, veio ao mundo.

O pai de Rui Barbosa foi um homem voltado para os problemas da educação e da cultura. Durante anos, dirigiu a Instrução Pública de sua província. Ele foi a principal influência na formação do filho Rui, orientando-o no amor à leitura dos clássicos e no respeito à documentação em suas pesquisas.

Rui, depois dos estudos preparatórios na província natal, foi fazer o curso jurídico em Recife. “Modelar  formas e debuxar imagens: eis a primeira e a mais geral expressão da capacidade criadora nas gerações nascentes. Cabe, pois, ao desenho, no programa escolar, precedência à escrita, cujo ensino facilita e prepara. Racionalmente, à leitura antecede a escrita e à escrita o desenho e a modelação. Estes quadram aos mis verdes anos da infância; ao passo que a verdadeira barbaria o ensinar a ler e escrever antes de certa idade”

Há uma Apresentação, de Luiz Vidal Gomes, e um Prefácio, de Rejane M. Moreira. A. Magalhães, no livro Desenho um Revolucionador de Ideias: 120 anos de discurso brasileiro (2004), organizado e publicado pela sCHDs Editora, Santa Maria, RS, cujos textos, além de referendarem a obra de Rui Barbosa para o Desenho e a Educação geral no Brasil, trazem detalhes engraçados e as coincidências que permitiram trazer para o SÉCULO XXI o pensar de Rui sobre a educação projetual e o ensino de Desenho industrial e Design no sul do país. Todos que fazem cursos de graduação e de pós-graduação em Design, particularmente aquele com fundamento em Desenho industrial,  podem, sim, tomar Rui Barbosa (05/11/1849-10/03/1923), jurista, político, diplomata, membro fundador da Academia Brasileira de Letras, como Paraninfo do Desenho.

Aloísio Magalhães (05/11/1927—13/06/1982), Bacharel formado pela Faculdade de Direito de Recife (onde Rio Barbosa também estudou), foi um dos principais artistas gráficos nordestinos, mas, nacionalmente reconhecido pelo seu papel como programador visual, hoje, denominado, no Brasil, de designer gráfico.

É um dos pioneiros na introdução do Design moderno no Brasil, tendo ajudado a fundar a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), Rio de Janeiro, em 1962 e, em 1960, em conjunto com Luiz F. Noronha e Artur L. Pontual, o escritório M+N+P, hoje, PVDI — Programação Visual Desenho Industrial.

Nascido no Recife, em 1927, ingressou na Faculdade de Direito desta cidade em 1946. A partir de 1950, participa do Teatro do Estudante de Pernambuco, dirigindo o seu Departamento de Teatro de Bonecos e é um dos fundadores das Edições TEP, embrião do Gráfico Amador. Em 1949, participa do IV Salão de Arte Moderna do Recife. Dois  anos mais tarde, recebe bolsa de estudos do governo francês para curso de Museologia no Louvre. Em 1953, já de volta de Paris, participa da II Bienal de São Paulo com duas pinturas.

Em 1954, fundou, no Recife, o Gráfico Amador, mistura de atelier tipográfico e editora, com Gastão de Hollanda, Orlando da Costa Ferreira e José Laurênio de Mello. As experiências com desenho e artes gráficas realizadas no Gráfico Amador são consideradas, até hoje, arrojadas e autênticas. Expôs seus trabalhos no Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Ministério da Educação e Cultura e na III Bienal de São Paulo.

Aloísio foi também Secretário Geral do Ministério da Educação e da Cultura, diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e esteve sempre ligado a questões da cultura brasileira.

Em 1965, desenhou o primeiro símbolo da TV Globo, uma estrela de quatro pontas. Ao lado de Joaquim Redig e de Rafael Rodrigues projetou a identidade visual da Petrobrás, do IV Centenário do Rio de Janeiro. Foi responsável pelo projeto e desenho gráfico das notas do cruzeiro novo (moeda adotada no país, a partir de 1969, pelo Banco Central do Brasil). E, em 1978, projetou o desenho para o papel-moeda incorporando as suas pesquisas formais com os cartemas.

Aloísio, dessa feita, continuou  contribuindo para a remodelação do padrão monetário brasileiro, sendo desta vez necessário estabelecer um sistema complexo de criação, englobando desde a escolha do temário a ser utilizado a definições importantes quanto ao uso da  tecnologia disponível, visando conquistar para o país a autonomia na produção de cédulas e de moedas (http://www.mamam.art.br).

Em 1982, desenha sua última série de litografias impressas a partir de ilustrações em preto e branco de Olinda, todas feitas a mão, enquanto se preparava para defender a inscrição da cidade na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, em Paris.  Participa, em junho, de uma reunião de Ministros da Cultura dos países de língua latina, em Veneza. Após ser eleito presidente do encontro, Aloísio faz seu último pronunciamento — uma defesa apaixonada e veemente das questões prementes da nossa sociedade em oposição àqueles habituados a tratar a cultura exclusivamente por sua vertente culta. Logo após, sofre violento derrame cerebral. Às pressas, é conduzido para Pádua, onde vem a falecer na madrugada de 13 de junho de 1982, quando tomava posse como presidente da Reunião de Ministros da Cultura dos Países Latinos.

Após sua morte foi editado o livro E Triunfo? registrando seu pensamento e sua ação à frente dos organismos federais de proteção á Cultura nacional. Por ser considerado um dos mais importantes figuras do Desenho brasileiro do SÉCULO XX, é considerado o Patrono do Design.



Livros para consulta:

MAGALHÃES, Aloísio. A Herança do Olhar: O Design de Aloísio Magalhães. Rio de Janeiro: SENAC RIO, 2003. (Organizado por João de Souza Leite com ensaios de vários autores).

MAGALHÃES, Aloísio. Memória de Olinda. Texto de Joaquim Falcão. Catálogo de Exposição. Rio de Janeiro: Museu nacional de Belas Artes, 1982.

MAGALHÃES, Aloísio. E Triunfo? A Questão de Bens Culturais no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Fundação Roberto Marinho, 1997.

LIMA, Guilherme Cunha. O Gráfico Amador: as origens da moderna tipografia brasileira. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

LIMA, Guilherme Cunha. O Gráfico Amador. Design e Interiores. Seção Resgate. Ano 5, nº27. São Paulo: Projeto Editores Associados, nov-dez, 1991, p.70-75.

REDIG, Joaquim. O Mestre Aloísio Magalhães. Design e Interiores, Seção Resgate. Ano 2, nº12. São Paulo: Projeto Editores Associados, jan-fev, 1989, p.102-109; Ano 5, nº28. São Paulo: Projeto Editores Associados, jan-fev, 1992, p.70-76.

BARBOSA, Rui. Desenho: Um Revolucionador de Ideias — 120 Anos de Discurso Brasileiro. Santa Maria: sCHDs, 2004. (Organizado por Luiz Vidal Negreiros Gomes).

Nota:

Através de Silvia Rodrigues Coimbra, uma das autoras do livro O Reinado da Lua: Escultores Populares do Nordeste (3 ed., Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 2009), tive oportunidade de conhecer pessoalmente Aloísio Magalhães, em Olinda. À época, 1980-81, estava eu às voltas com o desenho gráfico do catálogo bilíngue “Artesanato de Pernambuco para Exportação/Brazilian Handicraft for Export” (1981).

Esse projeto, coordenado por Benny Lutterman, Diretor Executivo do Núcleo de Promoção de Exportações de Pernambuco — PROMOEXPORT-PE, tinha pesquisa e texto de Sílvia Coimbra e fotografia de José Tavares Jofilson. Sílvia era amiga de Aloísio e sabia que ele, por valorizar a cultura material, particularmente, a artesanal e popular, tinha em sua casa alguns móveis rústicos de Seu Euclides, que precisávamos fotografar para o catálogo. Hoje, posso dizer que esse foi um grande presente de formatura dado a mim por Sílvia: acabara de me graduar Bacharel em Desenho Industrial, pela UFPE, quando fui convidado a acompanhá-la à casa de Aloísio, na Ladeira da Misericórdia, em Olinda. Lembro, sim, desse momento.

Salve! Dia do Desenho e do Design. 5 de novembro de 2010