Por Gabriel Carpenedo

Quando falamos de Design, estamos falando de uma profissão técnica e por isso, metódica. Muitos ainda não compreendem o porquê de ser assim. Talvez pensem ser uma invenção de alguns professores ou profissionais, mas a grande verdade é que o Design e suas bases filosóficas surgiram em um contexto social que moldou sua estrutura desta maneira.

Somos seres sociais, convivendo, compartilhando, experimentando e criando conjuntamente a nossa sociedade. Cada povo tem suas características peculiares, sua própria cultura, que é formada através das relações dos indivíduos. O coletivo surge da interação dos princípios, pensamentos, hábitos, costumes, crenças do ser individual com os outros. É neste “convívio” de pensamentos individuais que surgem as características de cada sociedade.

Em meados do século XVIII a 1ª Revolução Industrial surgiu na Inglaterra. Ela impactou a Inglaterra em nível social e econômico. Foi marcada pelo surgimento de maquinas a vapor, invenções que auxiliaram no aumento da produtividade, pelo surgimento das grandes cidades, o início do êxodo rural e a divisão da vida em turnos, trabalho, estudo e lazer, característica da sociedade industrial.

A 2ª etapa da Revolução Industrial aconteceu no século XIX e foi a sua expansão pela Europa. Isso se deu devido ao acumulo de capital por parte dos empresários ingleses que já não podiam investir somente na Inglaterra e passam a explorar novos mercados.  Esta etapa foi marcada pelo surgimento de duas potências econômicas, Alemanha e Estados Unidos, e pela intensificação de avanços tecnológicos dentro da indústria.

Em 1849 o Journal of Design and Manufactures de Henry Cole, Owen Jones, Matthew Digby Wyatt e Richard Redgrave publicou: “a primeira coisa a ser considerada pelo designer deveria ser a perfeita adaptação ao uso pretendido e que todo objeto, para proporcionar satisfação completa, deve ser adequado ao seu objetivo verdadeiro em sua construção” (PEVESNER, 1981).  Este pensamento surge das novas necessidades de uma sociedade consumista, que devido aos avanços tecnológicos, pode agora desfrutar de bens que antes não podia e os necessitam bem planejados, estudados, adequados ao homem e a produção da época.

O início do século XX foi marcado pela consolidação das bases teóricas da escola mecanicista (estrutural) de administração, tendo Taylor, Ford e Fayol como principais colaboradores e defensores deste modelo gerencial. Naquela época o mundo estava maravilhado com o surgimento de novas máquinas, tecnologias e bens. Isso fez com que a sociedade admirasse as máquinas por sua eficiência, produtividade e qualidade. Foi este contexto que proporcionou o surgimento desta abordagem administrativa, pois todos os valores das máquinas como estabilidade, padronização, previsibilidade e passividade foram transportados para a sociedade. Um bom trabalhador deveria ter as características de uma máquina, o que ocasionou um processo de desumanização do trabalho.

Neste mesmo período surgiu a chamada Teoria da decisão, que era outra manifestação da abordagem estrutural. As principais etapas deste processo são:

  1. Percepção da situação que envolve algum problema;
  2. Análise e definição de problema;
  3. Definição dos objetivos;
  4. Procura de alternativas de ação;
  5. Avaliação e comparação das alternativas;
  6. Escolha da alternativa mais adequada;
  7. Implementação da alternativa escolhida. (FERREIRA, 2005)

Estas etapas se assemelham em muito ao processo criativo do Design. Isso se deve pelo fato de ambas as disciplinas terem sido influenciadas pelo pensamento científico cartesiano. Esta semelhança pode se encontrada no processo criativo proposto por Bonsiepe:

  1. Problematização;
  2. Análise;
  3. Definição do problema;
  4. Anteprojeto geração de alternativas;
  5. Avaliação, decisão, escolha;
  6. Realização;
  7. Análise final de solução. (BONSIEPE, 1981)

E as semelhanças não param por ai, o autor Victor Ferreira no seu livro Modelos de Gestão da FGV diz, “duas dimensões que se encontram presentes em qualquer modelo de gestão: a forma e a função, entendidas, respectivamente, como a configuração organizacional adotada e as tarefas que precisam ser cumpridas”. Este mesmo pensamento foi interpretado como “forma segue a função” pelos designers e arquitetos funcionalistas do início do século XX . A escola de Ulm, Bauhaus foram influenciadas diretamente por este pensamento.

As bases filosóficas do Design surgem como uma manifestação do pensamento social daquela época que pode ser identificado e ser feito analogias com as mais diversas áreas do conhecimento, mostrando que não foi ao acaso o seu surgimento e a forma como se estruturou. O Design é uma manifestação social que foi capturada, interpretada e transformada em um campo do conhecimento. Da mesma forma a medicina foi por muitos anos considera “bruxaria”, até que a sociedade amadureceu e criou as condições para que esta se tornasse um campo do conhecimento, uma profissão.

 

Bibliografia:

FERREIRA, Victor Cláudio Paradela. Modelos de gestão. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.

PEVESNER, Nikolaus. Origens da arquitetura moderna e do design. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

BONSIEPE, Gui (coord.); KELLNER, Petra; POESSNECKER, Holger. Metodologia experimental: desenho industrial. Brasília: CNPq, 1984.

DE MASI, Domenico. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.

 

Sites consultados:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Industrial

http://pt.wikipedia.org/wiki/Segunda_Revolu%C3%A7%C3%A3o_Industrial

http://special.lib.gla.ac.uk/exhibns/month/aug2001.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Bauhaus

http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_Ulm

http://en.wikipedia.org/wiki/Wiener_Werkst%C3%A4tte

http://en.wikipedia.org/wiki/Deutscher_Werkbund